Bicicletas aro 29″ realmente precisam de suspensão?

Era algo que eu gostaria de experimentar há algum tempo: a ausência de suspensão em bikes com rodas 29″. É um assunto polêmico, causa caretas e expressões de desconfiança, sempre.

Porém, era uma experiência que eu tinha que fazer para ter minha própria opinião.

Conversando com um amigo que entende de bikes muuuito mais do que todos nós juntos (sim, o cara é muito sábio mesmo!), ele acredita que bicicletas de aro 29″ nem foram feitas para rodar com suspensão. É como se passasse em minha cabeça um filminho de 2 segundos de duração do pedal-teste que fiz ontem (dia 14/12/2014), em uma prova aqui em Jacareí. Quando ele disse isso, concordei imediatamente.

Quando eu comentava com meus amigos sobre essa minha idéia, eu ouvia apenas 2 respostas:
1 – Isso é muito legal, a bike vai ficar demais!
2 – Você é louco, não vai dar certo, você precisa de uma suspensão!
A resposta #2 ganhou com anos-luz de distância da #1.
E no fundo da minha mente eu pensava: Preciso? Realmente preciso? Isso é o que quero saber.

Depois de algumas semanas pesquisando sobre o assunto, descobri e acreditei ser necessário dois requisitos: um pneu com um volume métrico maior do que os mais utilizados (29×2.00 até 29×2.2) e uma montagem sem câmara de ar (tubeless).

Optei então pelo pneu Continental X-King 2.4. A princípio seria o RaceKing, mas ambos modelos atenderiam muitíssimo bem o projeto.

Mas, porque maior e sem câmara de ar?

Uma coisa estaria ligada à outra, neste caso. Sem câmara de ar o pneu trabalha melhor, absorve mais vibrações, fica mais maleável, se adapta muito melhor ao solo.

E se o aro for mais largo e comporte pneu 2.4 por exemplo, melhor ainda! As curvas que você fará com sua bike serão muito mais seguras e precisas. O pneu fica encaixado mais aberto no aro, melhorando a estabilidade do pneu nas curvas. Ele fica mais firme, não dobra tanto.

Utilizei na montagem aros comuns, o Vzan Extreme 29″ com 32 furos. Fiquei preocupado com um aspecto deste aro, o qual é indicado para pneus até a medida 29×2.2, mas resolvi arriscar assim mesmo.

Só precisaria não abusar de imediato, principalmente em asfalto.
Tinha algumas outras opções de aros para utilizar, mas o custo X benefício do Vzan Extreme é imbatível, detalhe que me fez bater o martelo tendo em vista que a idéia inicial era montar uma bike simples, mas com componentes de qualidade e que ficasse ótima para andar, e o mais bonita possível.

As outras opções de aros me davam um limite para pneus 29×2.35 e até 29×2.4 mas, novamente pelo preço, resolvi arriscar no Vzan Extreme. No final, parece que deu tudo certo, o aro aceitou o pneu sem nenhum problema.

Sobre a montagem tubeless, resolvi testar as montagens “caseiras”, sem fitas sofisticadas e caras, bicos especiais e etc.

Fui na boa e velha fita isolante em cima da fita de aro mesmo, e com um detalhe que quebrei a cabeça por vários dias para resolver e que merece uma postagem exclusiva falando só sobre isso, ou até um video mostrando como fiz a montagem.

A solução que encontrei te poupará tempo, dinheiro e paciência de limpar tudo depois.

suspensao-29-garfo-rigido__Sobre o comportamento da bike

Aconteceria uma prova aqui em Jacareí, em um percurso que eu não conhecia, e aproveitaria para fazer o teste da bike lá. Desde o início dos rascunhos da montagem dessa bicielta, já me programei para testá-la nesta prova.

E por poucas horas não consegui terminá-la tempo. Terminei a bike na noite anterior à prova, precisamente às 22:45. A prova em questão foi o 3º GP MTB de Jacareí, e o circuito foi um laço que é conhecido como 6 Morros.

Na verdade o cara que deu esse nome ao trecho, deve ter matado todas as aulas de matemática da vida dele. Quando eu já estava no 17º morro eu desisti de continuar contando os próximos.

Procurei não economizar a bike, e procurava buracos e valetas para passar com ela. E passei de todas as formas: segurando firme com os braços rígidos, segurando firme com os braços soltos, puxando a frente, deixando a roda da frente bater na valeta, e por aí foi…

Nas descidas procurava pedras e cascalhos, e fazia questão de fazer a frente da bike “trabalhar”.

Meus braços precisavam apenas estarem em sintonia com o terreno, mas isso fazemos automaticamente, certo? Eu deixava a frente da bike subir ou descer, apenas mantia as mãos firmes controlando e direcionando a bike.

Deixava a bicicleta “copiar” o terreno. Mas isso foi fácil, na verdade não tive trabalho algum, e em nenhum momento senti os braços cansados. O formigamento que senti na mão direita é normal, não foi culpa da frente rígida. Já tenho isso há anos e já aprendi a pedalar com as “formiguinhas dentro da luva”.

Nas subidas a bicicleta se comportou muitíssimo bem também. A frente firme e grudada no solo. Nem por um segundo tive a sensação que a frente poderia levantar. Mesmo dando uns “chutes” na pedalada com 24 (volante) x 36 (bog) a frente não desgrudou do chão. Muito, muito bacana!

Minhas conclusões

O resultado final me surpreendeu, passou por cima de todas as minhas espectativas, acabou com todas as dúvidas que eu tinha, e aquele meu amigo que manja demais de todos os aspectos de uma bicicleta, agora tem mais do meu respeito do que já tinha.

Eu adorei a experiência, adorei o resultado final, achei fantástica a montagem com garfo rígido. Ganha-se em leveza também: este garfo pesa 650 gramas, uma boa suspensão pesa em torno de 1800 gramas. Então são 1150 gramas a menos na bike, na frente da bike!

A frente da bike ficou leve, ficou esperta, ficou rápida para colocar e tirar a bike de onde você quiser. A resposta do freio também é rápida. Não temos aquela sensação da frente baixar antes da velocidade ser reduzida.

Você cutuca o manete do freio e a frenagem já começa, é instantâneo. E a bike freia com mais firmeza, com mais certeza. Logicamente os pneus e a calibragem de 28psi que deixei também faz com que o XKing se “amasse” e crie uma grande área de atrito no solo.

Mesmo sendo um pneu grande, ele é fantástico. Não é amarrado, não é pesado para empurrar, tem uma aderência incrível quando precisa ter, e rola tranquilo no asfalto sem pesar na pedalada. Definitivamente um conjunto que me deixou muito feliz!

Não senti falta de uma suspensão em nenhum segundo da prova, aliás, só lembrava que existe suspensão porque eu às via instaladas nas bikes da prova.

#QPdS? (Quem Precisa de Suspensão?)

A partir de agora, quando alguém perguntar sobre montar garfo rígido em bike 29″, direi que foi a melhor experiência que tive com esse padrão de roda, e que a pessoa deve experimentar por si só.

Tente, experimente, e não durma com a dúvida.
Tenho certeza que será fácil ela gostar também, pois não vejo nenhum aspecto negativo para ser o contrário. É muito, muito legal andar de garfo rígido!

Texto por: Fabio S.

Fabio Santos
Graduado em Comunicação Social & Marketing, mecânico de bicicletas, curioso, perfeccionista e muito chato. Desenvolvedor de produtos para o mercado de bicicletas, amante das bicicletas e toda a mecânica e tecnologia que envolve essas maravilhosas máquinas. Fundador da Revista BikeUP e do Gravel.one.